sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Dia da Consciência negra... Ai como dói!


Andei perambulando por idéias estranhas à respeito de tudo que tenho ouvido estes dias através desta nefasta e tediosa mídia brasileira.
Entre micro-vestidos e micro cérebros, macro-asneiras e mega futilidades.
Eu me perdi. Quis não mais opinar, criticar ou reagir, me senti babaca, afinal quem me colocou entre o bem e o mal, em um limbo existencial onde de lá posso criticar crentes moderninhos e caretas, gente feia e bonita, gente brega e legal, gente boa e gente má... Quem define o que?
Rolou um desencantamento com a realidade.
Mas mesmo assim um “comichão e coçadinha” apareciam nas madrugadas, idéias soltas desconexas, sono difícil. E como uma boa coincidência.
Tive enfim um bom motivo pra escrever. Ahhh, e o Gito me deu uma cutucada também, hehehe. Hoje é o dia nacional da consciência negra, tema que me toca profundamente. Afinal eu sou o que etnologicamente se definiria multiracial. Filha de pai negro e mãe mestiça (filha de índio com um branco). Mas na prática importa a cor da pele e eu sou uma negra que cresceu sem “consciência negra”.
E para ser bem sincera achava até meio ridículo essa coisa de afro-descendente. Revista de negro, musica de “preto”, estilo, religião de negro.
Sempre quis acreditar que tudo era igual para todos independente da cor.
Grande mentira essa que eu reproduzi! A violência simbólica é muito cruel... Essa balela de um país miscigenado, este paraíso da democracia racial. Democracia racial é um cacete! Ops! Apelei!
Voltando à vaca fria... Acontece que o racismo está em todos os cantos deste nosso país, nas escolas, nas repartições, na política, nas igrejas onde quer que haja gente de cores distintas.
Acredito que todos sabem piadas racistas ou já escutaram, se não praticaram, ao menos presenciaram situações de constrangimento geradas por pessoas racistas. Eu mesma, Aff. Inumeráveis vezes fui vítima de racismo, chegava a ser cômico. Um trauma especial com “sogras em potencial”. Eu era uma menina ótima, bonita e inteligente até, descobrirem que eu seria sua “nora em potencial”. Aí a coisa mudava de figura!
De inteligente e coisa e tal, passava à louca, tatuada, bêbada e o escambal.
Não preciso nem dizer que estou solteira, né?
Bom e não é apenas um caso isolado como o meu, mas é um incontável número de milhares de pequenos desaforos que os negros de todo o país já acostumaram a levar na esportiva. É como eu disse anteriormente, uma enorme violência simbólica que se faz contra o negro no Brasil. Não bastassem os séculos de escravidão, desumanização. Ainda convivemos com o estigma do negro favelado, presidiário, marginal.
E do lado avesso os “negros que deram certo” a mídia salpica as novelas com alguns negros, exalta médicos, engenheiros e hoje temos até um ministro negro no Brasil, como se fosse uma aberração!
Vocês podem até me achar doida, mas isso é o avesso do avesso.
É como se gritassem “olha cagamos na saída sim ...mas existem exceções!”
Ahhh, que cansaço. Quando o Brasil vai assumir suas raízes?
Quando o dia da consciência negra será um dia realmente comemorado?
Comemorado em igualdade e não complacência, igualdade de direitos e oportunidades. Respeito.
Respeito. Esta palavra me dói! Tenho-a tatuado em meu braço.
Esta data é tão vaga em nossa história e em nossa mente de brasileiro que é desconsiderada em várias capitais. E como a cobertura da mídia reflete o que o “povo anda engolindo”. As coberturas da TV mostram as comemorações como uma vaga manifestação de uma minoria, uma importância menor do que a que é dada à Marcha Gay.
E falar que negro é minoria no Brasil. É o mesmo que dizer que não existe branco na Alemanha!
Acredito que nunca é tarde para despertar a consciência negra que existe em cada brasileiro, afinal será assim, se aceitando, que temos a possibilidade de ter um país que comporte uma real igualdade racial, não imposta goela abaixo por leis e decretos, mas uma que brote da alma, do sangue de cada um que reconhece e não nega a sua identidade.

Paz perfeita!
Ávelin.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Pensamentos vaidosos sobre a vaidade


A vaidade quase nunca é "tema" porque é "teima". Não desgruda de nós.
Acertou o sábio Salomão. Tudo, mas tudo mesmo, é vaidade.
Tenho um amigo que vende jóias e me contou um caso curioso:
Sua melhor cliente não as usa. Ela é de certa denominação evangélica que proíbe o uso dos ornamentos por causa da vaidade. Mas ela compra para ter.
Alguns dizem que não são vaidosos por não usarem roupas de grife. A vaidade está justamente nisso. Em não usar.
Os que possuem certas idéias têm nelas a vaidade de possuí-las, mas é vaidoso aquele que não as têm ou que discorda.
Tudo, mas tudo mesmo é vaidade!
Em 1665, La Rochefoucauld disse algo interessante sobre a vaidade: Se alguma vez chegamos a admitir as nossas deficiências, fazemos isso por vaidade; e em outra frase, reforça o pensamento: A virtude não iria longe se a vaidade não lhe fizesse companhia.
Nietzsche também escreveu sobre a vaidade: Aquele que nega possuir vaidade normalmente a possui de forma tão brutal que instintivamente ele fecha os seus olhos diante dela para não se ver obrigado a desprezar a si mesmo. Em outro pensamento, ele diz: Aquilo que existe de mais vulnerável e, apesar disso, de mais inconquistável é a vaidade humana: de fato, sua força aumenta e pode tornar-se por fim gigantesca quando ela é ferida.
Não há como fugir disso.
Talvez o acerto [ou o pior erro] seria reconhecer e assumir.
Vejo em tudo e todos um grau elevado de vaidades com diferentes tons.
É óbvio que vejo isso por vaidade.
Mas, assim como disse Hugh Blair em 1777: "Embora todos os homens estejam de acordo sobre a doutrina geral da vaidade do mundo, tal é a sedução do amor-próprio que, não obstante, quase todos se vangloriam de que seu próprio caso é uma exceção à regra comum".
E também encontro verdade nas palavras de Drummond de Andrade em 1952: Por muito que examine minha vaidade, não lhe vejo o mesmo tom desagradável da dos outros. O que é uma vaidade suplementar.
Todas essas citações foram para exemplificar minha idéia mas são vaidosas, por eu citá-las. Talvez seria maior vaidade que eu tivesse tais idéias e as expressassem por conta própria, com minhas próprias ilustrações, assim, reforçaria meu ponto por conta própria.
Qual vaidade é melhor [maior?] para essa situação?
Não há maior e melhor, menor e pior nesse caso.
Tudo, mas tudo mesmo é vaidade!
Realmente, concordarei com Thomas More: A maior parte dos homens gosta de sua própria escrita acima de todas as outras.
Por isso esse texto, por isso esse blog. Leiam-no!
Preciso manter viva a minha vaidade até que eu torne ao pó.

Gito.

sábado, 14 de novembro de 2009

Ser e Estar


Mais religioso e fanático do que os crentes religiosos e fanáticos, são os que dizem que não vão à igreja por algumas razões clichês-tradicionais. Dizem que vêm muita coisa errada, ou que não concordam com isso e aquilo, que não sabem qual está certa, ou se baseiam nos comportamentos alheios para justificarem-se.

Assim como é puramente religioso o pensamento "cristão" de que Deus está nas 'igrejas' (concreto e tijolo) e de que alguém necessita inegavelmente pertencer à uma para estar com Cristo, tão mais ainda é o dos não-frequentadores-de-'igrejas' que simplesmente não querem nada com Jesus e justificam tudo com a velha e manjada desculpa da igreja-física-concreto-e-tijolo ser imperfeita.

Ora, sejam frequentadores ou não, o caso é que, de fato, nenhum entendeu o que realmente diz o evangelho. Sim, pois, o evangelho nada diz a respeito dessas concepções e percepções de igreja. E mais, tudo isso faz parte do conjunto de males do cristianismo, implantado por Constantino, com a única finalidade de obter poder político, lutando em almejo pelo domínio de Roma, e que, após o surgimento da Igreja Católica, e, logo mais, o Vaticano e todo o resto, como religião advinda de Cristo, mas que por Ele jamais foi implantada, são estes também: A religiosidade impregnada em todo mundo; cristãos e não cristão, frequentadores e não frequentadores, praticantes ou não, crentes ou não-crentes, tanto faz.

Sim, pois, notem: Os crentes, com suas doutrinas e visões à luz da religião cristã - mas sem que Cristo tenha criado qualquer religião, portanto, nada tem a ver com isso, sendo, assim, o cristianismo obra humana, e muito mais das maluquices de Constantino - dizem ser necessário ESTAR em alguma 'Igreja' e assim se achegar a Deus, ou ainda, por tanto estreitam ainda mais o caminho, dizendo ser alguma denominação e suas doutrinas como sendo o próprio CAMINHO, ou o próprio Jesus, e assim, preocupam-se com apenas condutas externas e reputações morais, religiosas, intelectuais e afins.

De igual modo, e também com a religiosidade impregnada em suas mentes e corações, os que fogem nada fazem de diferente daqueles que eles próprios julgam serem 'religiosos e fanáticos", antes, procedem de igual modo, pois, tão religiosos e fanáticos estão eles que, estando livres do ambiente da religião e da 'igreja', nada de diferente conseguem enxergar, senão a mesma coisa, do mesmo modo. (A religiosidade está impregnada em diversos ambientes. Em culturas, sociedades diversas.)

Jesus é objeto de interpretação, e não redentor e amigo pessoal, cujo acesso a Deus é intermediado apenas por Ele, e somente Ele. Através de tudo, tenta-se olhar pra Jesus, quando, na verdade, é necessário que o processo aconteça ao contrário, invertido, sendo Jesus a chave hermenêutica para toda interpretação de mundo. Sim, é a partir de Jesus que se olha todas as coisas, e não à partir de todas as coisas que se olha pra Jesus. Desse jeito, nada se pode alcançar além de uma espiritualidade e existência míope, caolha, cega, de olhos arrancados e furados pela visão à partir da religião.

Quem quer Jesus, não quer religião, pois esta nada pode fazer por ninguém, além de contribuir para o agravamento das doenças psicológicas e espirituais de todos os indivíduos da terra.
Jesus, sendo o caminho, a verdade e a vida, extermina todas as possibilidades de vida procuradas em outro lugar, a menos que se deseje viver a morte. O caminho não é a religião, seja ela qual for. A verdade não é outra senão Cristo e o seu evangelho, e a vida não está em qualquer outro lugar senão no sangue.
Assim, todo aquele que conhece a verdade, é liberto por ela, o próprio Cristo, ainda que a muito andem enganados pelo lobo vestido de pastor. Pois, as suas ovelhas ouvem a voz do BOM PASTOR, e o seguem.
Quem está livre da religiosidade, e anda pelas estradas da vida na lucidez do evangelho, prossegue para o alvo, pois bem sabe que igrejas não são lugares, mas pessoas. Tanto mais sabe, que com Deus não há desculpas, apenas verdades e sinceridade no viver.
Igreja sou eu, é você, e todos quantos, de alguma forma, deixaram-se invadir pelo espírito de Deus, e foram tomados de amor por Jesus e fizeram-se casas, morada de Deus.
Igreja são corações, de carne e sangue. Logo, só o que pode haver de bom em fugir das "igrejas"-templos-construções com as corriqueiras desculpas é não ser um religioso-praticante. do contrário, nenhuma diferença há.

Quem é de fato livre da religiosidade, mas sabe que precisa de Deus e O reconhece como único capaz de oferecer transformação, cura, libertação, verdade, caminho, esperança e vida, sabe que Jesus não habita em nenhum lugar senão em corações, que não há doutrina alguma além daquela que é sã, o evangelho, e que igreja são todos aqueles que se deixaram ser assim, invadidos por Cristo, mesmo quando ficaram desamparados das comunidades cristãs. Gente assim sabe que antes de tudo, é ovelha do Bom Pastor, que igreja se faz no coração e acontece na congregação dos que estão do mesmo modo.
Sabe também que diante de Deus, que sonda todos os coração, que é QUEM tem todas as coisas muito bem expostas e às claras, importa muito mais SER (igreja) do que ESTAR ('igreja'). Ora, quem ESTÁ, mas não É, de fato, nunca esteve em lugar nenhum senão na re-união dos NÃO-SOMOS. Porém, quem É, é de fato, mesmo que não esteja. Estes sim estiveram em todos os cantos, sem deixarem de estar na igreja que é única.
A Igreja que É de Cristo não é de tijolos, nem de concreto ou janelas, tampouco é fixa em algum terreno, ao contrário, de igual modo, assim como Ele, os seus também não têm aonde reclinar as cabeças.

Que Deus, que é aquEle que É, cujos seus também SÃO, não deixe de SER em você, ainda que você não esteja. Pois Deus, Sendo, está em todos os lugares quando É no nosso coração.

Beijão, pessoar.

Isabela Pizani é estudante do curso de Publicidade no Instituto Superior de Ciências Aplicadas e em Limeira. (isabelapizani@gmail.com)

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Distorção


As crianças estão no orfanato.
Muitas que não estão lá, estão nas ruas.
Muitas que fogem das ruas se encontram no tráfico.
Os jovens estão na guerra.
Muitos que não estão lá, estão no exército.
Muitos que fogem do exército se envenenam nas faculdades.

O vaso está na cozinha.
O quadro está no armário.
O inferno está no outro.
O Paraíso está lotado.
O rádio está desligado.
O amor, motorizado.

Você está ausente.
João está perdido.
Todos estão cansados.
O advogado está no bar.
O mecânico está no ar.
O avião está no mar.

Meus navios em algum deserto.
Um deserto no Alaska.
Atacama na Paulista.
A galáxia está na terra.
Sarney lá no senado.
Meu olhar embaralhado.

Todos e tudo, lugares errados.
A vida está no eu.
O eu virou o Rei.
Deus está na igreja.
A igreja está trancada.
Meu coração esvaziado.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Os muitos eus


De tempo em tempo escrevo experiências já vividas; antecipo-me à perda da memória. Nesses passeios ao passado, desisti de voltar aos lugares que me marcaram. Meu mundo adulto encolheu; o vasto universo infantil desaparece aos poucos. Mas não consigo me desvencilhar das personagens que me impressionaram. Vez por outra elas me desobedecem e saem das sombras; nem todos me alegram, alguns insistem em me atormentar.

De Londrina não revejo apenas o pó vermelho que encardia os pés e tingia o céu em tardes de temporal – Como dava medo! Ressuscito vultos; amigos que me ensinaram a nadar em ribeiros e represas. Da velha catedral londrinense, não esqueço o rosto do padre que me estendeu o primeiro sacramento.

Meu passado não foi perfeito. Cedo, conheci pessoas ruins, tipos esquisitos que me mostraram um mundo perigoso.

Papai estava preso e permanecia incomunicável em alguma base militar do Brasil. Logo antes do golpe, ele pedira transferência de Londrina para outro destacamento aéreo, mas antes do despacho oficial, o governo capitulou. Mamãe, grávida de gêmeos e mais cinco filhos, viu-se no meio da tormenta. A situação se agravava a cada momento. Sem eira nem beira, não tínhamos para onde voltar e não sabíamos para onde ir. Acabamos na apertada casa de vila dos meus avós em Fortaleza. Precisando estudar, fui matriculado em um Grupo Escolar.

O prédio era mal cuidado; as carteiras, pensas, pareciam prestes a desabar. A lousa guardava um verde desbotado. Na primeira semana de aula eu e meu irmão chamávamos a atenção devido ao sotaque paranaense. A choça dizia que soava afeminado. Nunca hei de esquecer a manhã quando ouvi: “Veado!”. Fui na direção da voz, disposto a brigar. Não dei três passos e seis formaram uma parede humana; todos mais fortes e mais velhos do que eu. Um deu um passo à frente para me afrontar. Mas não ousei nenhum gesto. Ele então escarrou e cuspiu no meu rosto.

Ódio, raiva, ira, furor, acenderam uma febre súbita por todo o meu corpo. Rompeu-se a indignação que eu represava pela prisão do papai, de não ter casa ou quarto de dormir, de pressentir que jamais voltaria a me deitar no colo da mamãe, como em Londrina, de frequentar uma escola vagabunda, de ter perdido antigos amigos. Tentei não chorar, e dei as costas para o grupo. Enxuguei o cuspe, mas o ódio permaneceu. Por anos, procurei guardar aquela fisionomia para matá-lo.

Pergunto-me se já consegui esquecer a afronta. Acho que sim. Cheguei a esforçar-me para redesenhar sua expressão odiosa, mas ele sumiu nos anos que se passaram. Sem um rosto o ódio não consegue se adensar. Embora a memória daquele dia continue vívida a raiva passou. Escrevo procurando resignificar aquele passado. A maldade só é destruída quando a bondade anula a ferocidade do rancor.

Outras decepções me marcaram desde então. Não esqueço: namoradas me traíram; amigos que me consideraram pobre (eu não tinha dinheiro para comprar um mísero refrigerante na praia) seguiram por outras trilhas.

Perguntam-me sobre a minha tristeza. Respondo: ela é filha das decepções, mas a mãe dos vários eus que convivem dentro de mim. Sou filho das dores e alegrias que me sobrevieram ao longo dos anos. Viver é isso: não deixar que as alegrias me deixem superficial ou que as dores me desfigurem pelo ódio. Lembro de Mia Couto: “Eu somos tristes. Não me engano, digo bem. Ou talvez: nós sou triste? Porque dentro de mim, não sou sozinho. Sou muitos. E esses todos disputam minha única vida. Vamos tendo nossas mortes. Mas parto foi só um. Aí, o problema. Por isso, quando conto a minha história me misturo, mulato não de raças, mas de existências”.

Nas existências que vivo, aprendo resiliência, perseverança e santa teimosia que, juntas, me animam ao imperativo de amar.

Soli Deo Gloria.

Ricardo Gondim é teólogo brasileiro, conferencista, Autor de 'Direto ao ponto', Ed. Doxa, entre outros.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

O rastro do diabo


O clarão tomou os céus. Cruzou vindo do sul e sumiu. Crianças correram para suas casas, algumas mais ousadas, seguiam o rastro de fumaça na direção do horizonte. Corriam descalças, como fazem atrás das pipas entre telhados e vielas. Os religiosos faziam o sinal da cruz. Os céus anunciavam o fim. Um monstro invadia o planeta. Metade estrela, metade diabo. Deixava um rastro no céu. A cauda de suas maldades. A igrejinha encheu de fiéis, que preocupados com o tamanho da fila no confessionário, confessavam seus pecados uns aos outros. As famílias se reuniram. Maridos confessavam seus deslizes amorosos. Mães ninavam seus filhos até que eles pegassem no sono. O povo ficou aflito, coração apertado. Os bares fecharam mais cedo. O cabaré da Marineide se tornou o esconderijo das mulheres de saia curta, que se atreviam nas esquinas. Até o Seu Altevir, ateu convicto fez uma oração antes do seu último jantar. Uns estudantes, metidos a intelectuais discutiam as provas científicas do fim. Seria um novo Big Bang? No seminário protestante, na saída da cidade, houve uma palestra sobre o livro de Apocalipse e Pré-milenismo. Poucos compareceram. Só aqueles que temiam o que poderia suceder-lhes.
Todos estavam preocupados. Coração na mão. Mãos no bolso. Bolsos molhados de suor.
Dona Bernadete, a beata, confessou estar de olho no padre Joaquim desde 1939.
O prefeito se enforcou e sob seu corpo pendurado, um bilhete que denunciava seu envolvimento com a mulher do vice.
Os irmãos se abraçaram. Amigos telefonavam uns aos outros dizendo palavras de conforto. A Dona Benedita fez bolinhos de chuva e levou aos mendigos que ficavam debaixo da passarela do Benfica. Eles não entenderam o gesto carinhoso daquela assistente social até então rabugenta como o cão chupando manga. Itamar beijava o símbolo do Juventus Bom Jardim, seu time do coração. O vereador Tunico correu com a sua Kombi e entregou suas últimas cestas básicas e bujões de gás para os moradores do Serra do Sol, como prometido nas eleições do mês passado. Benê criou coragem e subiu a janela do sobrado da Aninha, menina rica que morava no centro da cidade, bateu na janela e roubou um beijo de Ana, que impactada com o romantismo do Benê, mecânico de corpo definido, que era pobre mas até que era bonitinho, tirou a blusa e o sutiã, para um susto daqueles, que fez Benê escorregar e quebrar o pé com a queda, lá embaixo. A sedução acabou quando os pais dela chamaram a polícia que demorou a atender, por estarem todos envolvidos numa partida de truco que valia uma caixa de cerveja. Só atenderam por ser uma chamada da família Barchelleto, tradicional na cidade, vindos do sul da Itália. Benê que não conseguiu correr com o pé quebrado, foi apanhando no chiqueirinho da viatura até à delegacia, onde foi acusado por tentativa de estupro, já que a moça estava sem as partes de cima. O delegado, entre um charuto e outro, proibiu o escrivão de digitar "parte de cima" e procurar um termo mais apropriado, e o escrivão cansado daquilo tudo, fingiu uma diarréia e no banheiro cheirou um pouco do pó que sobrava da apreensão dois dias antes, do Zé Melado, traficante do Morro da Pinguela, que vinha de umas viagens esquisitas à Bolívia, com uma novidade e tanto, coisa que por lá mascavam e por cá cafungavam.
Escureceu e o rastro do diabo continuava no céu. Aquela marca da besta. O sinal do fim, agora tinha tons avermelhados, lembrando o inferno e o fogo que consome os pecadores. Do qual ninguém poderia fugir. Ninguém pegou no sono. A cidade estava muda. Enlutada. Todos pressentiam o fim. Alguns trêmulos.
Peteca, o conhecido maluco, mijava nas calças e imitava avião. O delegado mandou abrir a porta da delegacia. Benê, Zé Melado e todos os criminosos foram soltos. O escrivão foi encontrado desmaiado no banheiro, com pó no nariz, numa possível overdose. O circo foi desmontado, o leão fugiu e devorou o domador. Zé Melado tratou de enterrar sua mercadoria. A cidadezinha virou de ponta cabeça no último dia da existência.
No dia seguinte havia em todos uma perplexidade além das olheiras e caras amassadas, quando o Tonim Tropeço, menino da cidade vizinha, veio apitando em sua bicicleta e distribuiu de casa em casa o jornal que anunciava: O satélite russo Sputinik cortou o céu do Brasil na tarde de ontem.

Gito.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

A morte da subjetividade


Comentários geram comentários, e explicações dão novos motivos para explicações. [...] Não ocorre com freqüência que um homem de capacidade comum entende muito bem um texto ou uma lei que ele lê até que vá consultar um comentarista ou procure conselheiros, os quais, quando tiverem terminado de lhe explicar, fazem as palavras não significar coisa alguma ou significar o que ele desejar?
John Locke (1689)


Hás de concordar comigo, creio, que não existe coisa alguma em que os homens mais se enganam e desencaminham outros do que na leitura e escrita de livros, [mas] não discutirei se os escritores desencaminham os leitores ou vice-versa: pois parecem ambos dispostos a enganar e ser enganados.
John Locke (1697)




De repente houve um surto de intelectualidade. De repente ouve lá ao longe as colocações nutridas em recipientes progressistas. Todos com tantas opiniões sobre tudo! Tudo com especificações, ramificações, num plano cartesiano. É o desdém dos analfabetos e o chamariz do egocêntrico. Quantos são os que discorrem sobre assuntos diversos, caem em suas próprias ciladas nos jogos intelectuais, na psique, vomitam intelectualidades, se afundam no Mistério, se perdem entre idéias enquanto perdem ideais! Outrora, éramos imunes à lógica, ao método científico, à sistematização do pensamento! Talvez, pela inclusão digital, a desgraça do vestibular e as rodas de debates em universidades, fomos robotizados. Pois só os robôs não dispõem de uma irregularidade no viver, a subjetividade. Não são mais aceitos os famosos "Porque sim", aquelas respostas que não são mergulhadas no ácido da objetividade, são apenas por achar, por querer, por crer.
Sou constantemente questionado sobre a minha fé. Mas na verdade, não querem saber sobre o que creio, mas o porquê de crer assim. Quando explico minhas razões, questionam minhas intenções. As minhas razões, na verdade, são desnutridas da lógica razão-ética-moral-científica. É nutrida de significados, ainda que incompletos, desnorteados, perdidos de sentido.
Outro dia, me questionaram: - Qual o significado dessa sua tatuagem? Eu disse: - São rabiscos. E a pessoa continuou: - E o que significam os rabiscos?
Eu não soube explicar! Qual significado se dá ao rabisco? Fiquei pensando em inventar um, para responder com mais propriedade numa outra ocasião.
Vivemos o paradigma da modernidade, a era passada, mas que nos deu rumos. A razão era o paradigma da modernidade, depois de na Idade Média, ter sido a . Mas, na pós-modernidade, não nos guiamos pela fé nem pela razão, senão pelo mercado. A mídia divulga o mercado e faz o mundo [?] girar. E esse sistema cria normas morais esquisitas. Não basta ser alguém, é preciso ter razão para isso. Por isso, tanta baboseira sendo escrita e lida, documentada, discutida, comercializada, estudada, etc. Vende-se idéias para comprar elogios. É uma massagem ao ego. Tudo com palavras que desgrudam dos dicionários na marra, porque a moçada gosta de falar bonito, escrever legal, ouvir o que é difícil de entender, palavras lindas mesmo que sem conteúdo.
Talvez um infeliz exemplo disso, seja este texto aqui.


Gito.

Visões e(m) crise

Pensar em missões sem os aspectos sociais que envolvem qualquer tarefa missionária é pensar em denominacionalização, "evangeliquismo", catequização na base da opressão, assim como foi a vinda dos religiosos europeus entre os indígenas brasileiros.
Não conheço sequer uma agência missionária íntegra ou um missionário coerente com o seu objetivo que não vivencie, ou melhor, que não perceba as ações do Evangelho que vão além de aulas teológicas, mas transformações sociais, econômicas, e tantas mais.
Talvez, com a imposição positivista e com a influência capitalista na mídia, nos seminários e nas igrejas, principalmente as que possuem vínculos com fortes denominações americanas, “tradicionalizadas” na reforma protestante; toda a ação em prol do pobre, em mudanças sociais, ou até mesmo em ecologia, são atribuídas à uma atuação esquerdista.
Não consigo ler nos Evangelhos uma só ação missionária que fosse desprovida de transformações de caráter social.
Jesus, na sinagoga de Nazaré, no dia de Sábado, abriu o livro de Isaías e leu: O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para evangelizar os pobres; enviou-me para proclamar libertação aos cativos e restauração da vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos, e apregoar o ano aceitável do Senhor. E tendo fechado o livro, devolveu-o ao assistente e sentou-se; e todos tinham os olhos fitos nele. Então, Jesus passou a dizer-lhes: Hoje, se cumpriu a Escritura que acabais de ouvir. (Lucas 4:18 - 21)
Também o apóstolo Paulo, cita em Gálatas a orientação que recebeu de Pedro: ..."e, quando conheceram a graça que me foi dada, Tiago, Cefas (Pedro) e João, que eram reputados colunas, me estenderam, a mim e a Barnabé, a destra de comunhão, a fim de que nós fôssemos para os gentios, e eles, para a circuncisão; recomendando-nos somente que nos lembrássemos dos pobres, o que também me esforcei por fazer. (Gálatas 2: 9 e 10 - Itálicos meus)
Poderia citar tantos outros textos bíblicos sobre a atuação missionária junto aos excluídos sociais e aos pobres.
Se Jesus e Paulo usassem estes termos, hoje, seriam eles considerados de esquerda? Marxistas ateus?
São Jesus e Paulo discípulos de Karl Marx?
E o que dizer dos missionários no Haiti? O país onde os moradores comem um biscoitinho conhecido como "tê" que é feito de argila, manteiga e sal? Eles teriam o coração voltado à evangelização sem um desejo de transformação social? E sendo assim, seriam eles marxistas?
E as tantas agências missionárias nos países da Oceania, que sofreram com deslizamentos de terra e tufões. Reconstruir casas e escolas comunitárias é uma ação socialista?
E o que dizer dos doutores da alegria no Afeganistão? Discordando da guerra e levando alegria às crianças nos leitos de morte, bombardeadas, tudo gratuitamente, eles estariam organizando uma revolução comunista?
Se focar os olhos aos pobres, aos excluídos sociais, aos oprimidos pelo neoliberalismo capitalista é ser comunista, eu sou. Mas preferiria dizer que sou discípulo Daquele que não tinha onde reclinar a cabeça. Esta é a minha afirmação política: Não tenho partidos, sou discípulo de um prisioneiro político.
Uma visão limitada, sem conhecimento, sem pesquisa e preparo de material, sem entrevistas e muita reflexão, faz com que as pessoas discirnam equivocadamente as ações missionárias e mais, de um ponto façam fuá, num objetivo de auto-proclamação-intelectual.
Estes dias li uma crítica ao esquerdismo missionário. Lá, quase todas as críticas às organizações missionárias foram baseadas em pesquisa deste blog, pois aqui possuo links e vínculos com as organizações citadas.
O que faltou, na pesquisa do crítico, foi perceber que esta página é peixe pequeno. Ele talvez desconheça a atuação de outras organizações missionárias no que ele caracteriza como viés de esquerda. Talvez ele esteja desavisado sobre a Missão Integral, sobre os excelentes expoentes brasileiros Ariovaldo Ramos, Ed René Kivitz, Robinson Cavalcanti e Ricardo Gondim, que lançará seu mais novo livro em Novembro, pela Fonte Editorial chamado de Missão Integral: em busca de uma identidade evangélica; e outros. A Declaração da Rede Miquéias diz o seguinte sobre Missão Integral:
“Não é somente uma questão de que o evangelismo e o envolvimento social devam ser feitos concomitantemente. Ao invés disso, na missão integral a nossa proclamação tem conseqüências sociais ao motivarmos as pessoas a amarem e se arrependerem em todas as áreas da vida. O nosso envolvimento social tem conseqüências evangelísticas ao testemunharmos a graça transformadora de Jesus Cristo. Se ignorarmos o mundo, traímos a Palavra de Deus que nos envia para servir o mundo. Se ignorarmos a Palavra de Deus, não teremos nada para levar ao mundo. A justiça e a justificação pela fé, o louvor e as ações políticas, a transformação no âmbito espiritual, material e pessoal, e as mudanças estruturais devem caminhar juntas. Assim como vimos na vida de Jesus, o ser e o fazer estão no âmago da nossa tarefa integral.”

Talvez o autor das críticas desconheça O Movimento Contra a Miséria, Missão SAL, que atua no ABC paulista com os excluídos sociais, a participação da ABU, Aliança Bíblica Universitária no Conselho Nacional de Juventude (órgão consultivo junto do Governo Federal)...
Talvez, o autor não tenha percebido a presença do mesmo vídeo que ele considerou "um vídeo simpatizante do comunismo no post 11 de setembro" em outros blogs, como o Pavablog, por exemplo, que para mim é o melhor blog do Brasil, com postagens excelentes sem inclinações políticas.
Talvez o autor tenha lido pouco de Rubem Alves, Jung Mo Sung, René Padilha, Milton Schwantes, Jon Sobrino, Frei Betto, Leonardo Boff, (os dois últimos, "ícones do ideário marxista") e conheça pouco sobre as JEC's, CEB's, Pastorais, a escola de formação política do Avalanche Missões Urbanas, ou a escola de missões urbanas da JOCUM no Distrito Federal.
A coisa está aí faz tempo!
Tem gente trabalhando com os pobres faz tempo!
Tem gente chamando toda essa moçada de "gente da esquerda" faz tempo!
Desde o governo de Getúlio Vargas. Na Ditadura Militar, tentaram sufocar com a repressão, todas as organizações que "inclinassem" ao social. Palavras como "oprimido", ditas por Jesus no texto já citado ou "não me esquecer dos pobres", frase de Pedro à Paulo, os fariam ser considerados subversivos!
Muita gente está chamando os atuantes em projetos sociais, missionários ou não, de comunistas há muito tempo, por isso, ilustrar idéias com as "pérolas" do meu blog é pouco.
Análises equivocadas, ou melhor, visão superficial, traz consigo implicações para o todo da vida. E mais: os resultados disto para o cristianismo foram trágicos em todas as suas aplicações históricas.
Ninguém aprendeu essa lição?

Gito.

PS: Não mais comentarei sobre o assunto visto que esse texto mostra a minha posição.
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