terça-feira, 3 de novembro de 2009
O rastro do diabo
O clarão tomou os céus. Cruzou vindo do sul e sumiu. Crianças correram para suas casas, algumas mais ousadas, seguiam o rastro de fumaça na direção do horizonte. Corriam descalças, como fazem atrás das pipas entre telhados e vielas. Os religiosos faziam o sinal da cruz. Os céus anunciavam o fim. Um monstro invadia o planeta. Metade estrela, metade diabo. Deixava um rastro no céu. A cauda de suas maldades. A igrejinha encheu de fiéis, que preocupados com o tamanho da fila no confessionário, confessavam seus pecados uns aos outros. As famílias se reuniram. Maridos confessavam seus deslizes amorosos. Mães ninavam seus filhos até que eles pegassem no sono. O povo ficou aflito, coração apertado. Os bares fecharam mais cedo. O cabaré da Marineide se tornou o esconderijo das mulheres de saia curta, que se atreviam nas esquinas. Até o Seu Altevir, ateu convicto fez uma oração antes do seu último jantar. Uns estudantes, metidos a intelectuais discutiam as provas científicas do fim. Seria um novo Big Bang? No seminário protestante, na saída da cidade, houve uma palestra sobre o livro de Apocalipse e Pré-milenismo. Poucos compareceram. Só aqueles que temiam o que poderia suceder-lhes.
Todos estavam preocupados. Coração na mão. Mãos no bolso. Bolsos molhados de suor.
Dona Bernadete, a beata, confessou estar de olho no padre Joaquim desde 1939.
O prefeito se enforcou e sob seu corpo pendurado, um bilhete que denunciava seu envolvimento com a mulher do vice.
Os irmãos se abraçaram. Amigos telefonavam uns aos outros dizendo palavras de conforto. A Dona Benedita fez bolinhos de chuva e levou aos mendigos que ficavam debaixo da passarela do Benfica. Eles não entenderam o gesto carinhoso daquela assistente social até então rabugenta como o cão chupando manga. Itamar beijava o símbolo do Juventus Bom Jardim, seu time do coração. O vereador Tunico correu com a sua Kombi e entregou suas últimas cestas básicas e bujões de gás para os moradores do Serra do Sol, como prometido nas eleições do mês passado. Benê criou coragem e subiu a janela do sobrado da Aninha, menina rica que morava no centro da cidade, bateu na janela e roubou um beijo de Ana, que impactada com o romantismo do Benê, mecânico de corpo definido, que era pobre mas até que era bonitinho, tirou a blusa e o sutiã, para um susto daqueles, que fez Benê escorregar e quebrar o pé com a queda, lá embaixo. A sedução acabou quando os pais dela chamaram a polícia que demorou a atender, por estarem todos envolvidos numa partida de truco que valia uma caixa de cerveja. Só atenderam por ser uma chamada da família Barchelleto, tradicional na cidade, vindos do sul da Itália. Benê que não conseguiu correr com o pé quebrado, foi apanhando no chiqueirinho da viatura até à delegacia, onde foi acusado por tentativa de estupro, já que a moça estava sem as partes de cima. O delegado, entre um charuto e outro, proibiu o escrivão de digitar "parte de cima" e procurar um termo mais apropriado, e o escrivão cansado daquilo tudo, fingiu uma diarréia e no banheiro cheirou um pouco do pó que sobrava da apreensão dois dias antes, do Zé Melado, traficante do Morro da Pinguela, que vinha de umas viagens esquisitas à Bolívia, com uma novidade e tanto, coisa que por lá mascavam e por cá cafungavam.
Escureceu e o rastro do diabo continuava no céu. Aquela marca da besta. O sinal do fim, agora tinha tons avermelhados, lembrando o inferno e o fogo que consome os pecadores. Do qual ninguém poderia fugir. Ninguém pegou no sono. A cidade estava muda. Enlutada. Todos pressentiam o fim. Alguns trêmulos.
Peteca, o conhecido maluco, mijava nas calças e imitava avião. O delegado mandou abrir a porta da delegacia. Benê, Zé Melado e todos os criminosos foram soltos. O escrivão foi encontrado desmaiado no banheiro, com pó no nariz, numa possível overdose. O circo foi desmontado, o leão fugiu e devorou o domador. Zé Melado tratou de enterrar sua mercadoria. A cidadezinha virou de ponta cabeça no último dia da existência.
No dia seguinte havia em todos uma perplexidade além das olheiras e caras amassadas, quando o Tonim Tropeço, menino da cidade vizinha, veio apitando em sua bicicleta e distribuiu de casa em casa o jornal que anunciava: O satélite russo Sputinik cortou o céu do Brasil na tarde de ontem.
Gito.
sexta-feira, 30 de outubro de 2009
A morte da subjetividade
Comentários geram comentários, e explicações dão novos motivos para explicações. [...] Não ocorre com freqüência que um homem de capacidade comum entende muito bem um texto ou uma lei que ele lê até que vá consultar um comentarista ou procure conselheiros, os quais, quando tiverem terminado de lhe explicar, fazem as palavras não significar coisa alguma ou significar o que ele desejar?
John Locke (1689)
Hás de concordar comigo, creio, que não existe coisa alguma em que os homens mais se enganam e desencaminham outros do que na leitura e escrita de livros, [mas] não discutirei se os escritores desencaminham os leitores ou vice-versa: pois parecem ambos dispostos a enganar e ser enganados.
John Locke (1697)
De repente houve um surto de intelectualidade. De repente ouve lá ao longe as colocações nutridas em recipientes progressistas. Todos com tantas opiniões sobre tudo! Tudo com especificações, ramificações, num plano cartesiano. É o desdém dos analfabetos e o chamariz do egocêntrico. Quantos são os que discorrem sobre assuntos diversos, caem em suas próprias ciladas nos jogos intelectuais, na psique, vomitam intelectualidades, se afundam no Mistério, se perdem entre idéias enquanto perdem ideais! Outrora, éramos imunes à lógica, ao método científico, à sistematização do pensamento! Talvez, pela inclusão digital, a desgraça do vestibular e as rodas de debates em universidades, fomos robotizados. Pois só os robôs não dispõem de uma irregularidade no viver, a subjetividade. Não são mais aceitos os famosos "Porque sim", aquelas respostas que não são mergulhadas no ácido da objetividade, são apenas por achar, por querer, por crer.
Sou constantemente questionado sobre a minha fé. Mas na verdade, não querem saber sobre o que creio, mas o porquê de crer assim. Quando explico minhas razões, questionam minhas intenções. As minhas razões, na verdade, são desnutridas da lógica razão-ética-moral-científica. É nutrida de significados, ainda que incompletos, desnorteados, perdidos de sentido.
Outro dia, me questionaram: - Qual o significado dessa sua tatuagem? Eu disse: - São rabiscos. E a pessoa continuou: - E o que significam os rabiscos?
Eu não soube explicar! Qual significado se dá ao rabisco? Fiquei pensando em inventar um, para responder com mais propriedade numa outra ocasião.
Vivemos o paradigma da modernidade, a era passada, mas que nos deu rumos. A razão era o paradigma da modernidade, depois de na Idade Média, ter sido a fé. Mas, na pós-modernidade, não nos guiamos pela fé nem pela razão, senão pelo mercado. A mídia divulga o mercado e faz o mundo [?] girar. E esse sistema cria normas morais esquisitas. Não basta ser alguém, é preciso ter razão para isso. Por isso, tanta baboseira sendo escrita e lida, documentada, discutida, comercializada, estudada, etc. Vende-se idéias para comprar elogios. É uma massagem ao ego. Tudo com palavras que desgrudam dos dicionários na marra, porque a moçada gosta de falar bonito, escrever legal, ouvir o que é difícil de entender, palavras lindas mesmo que sem conteúdo.
Talvez um infeliz exemplo disso, seja este texto aqui.
Gito.
Marcadores:
Gito,
opinião,
Pós-modernidade
Visões e(m) crise
Pensar em missões sem os aspectos sociais que envolvem qualquer tarefa missionária é pensar em denominacionalização, "evangeliquismo", catequização na base da opressão, assim como foi a vinda dos religiosos europeus entre os indígenas brasileiros.
Não conheço sequer uma agência missionária íntegra ou um missionário coerente com o seu objetivo que não vivencie, ou melhor, que não perceba as ações do Evangelho que vão além de aulas teológicas, mas transformações sociais, econômicas, e tantas mais.
Talvez, com a imposição positivista e com a influência capitalista na mídia, nos seminários e nas igrejas, principalmente as que possuem vínculos com fortes denominações americanas, “tradicionalizadas” na reforma protestante; toda a ação em prol do pobre, em mudanças sociais, ou até mesmo em ecologia, são atribuídas à uma atuação esquerdista.
Não consigo ler nos Evangelhos uma só ação missionária que fosse desprovida de transformações de caráter social.
Jesus, na sinagoga de Nazaré, no dia de Sábado, abriu o livro de Isaías e leu: O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para evangelizar os pobres; enviou-me para proclamar libertação aos cativos e restauração da vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos, e apregoar o ano aceitável do Senhor. E tendo fechado o livro, devolveu-o ao assistente e sentou-se; e todos tinham os olhos fitos nele. Então, Jesus passou a dizer-lhes: Hoje, se cumpriu a Escritura que acabais de ouvir. (Lucas 4:18 - 21)
Também o apóstolo Paulo, cita em Gálatas a orientação que recebeu de Pedro: ..."e, quando conheceram a graça que me foi dada, Tiago, Cefas (Pedro) e João, que eram reputados colunas, me estenderam, a mim e a Barnabé, a destra de comunhão, a fim de que nós fôssemos para os gentios, e eles, para a circuncisão; recomendando-nos somente que nos lembrássemos dos pobres, o que também me esforcei por fazer. (Gálatas 2: 9 e 10 - Itálicos meus)
Poderia citar tantos outros textos bíblicos sobre a atuação missionária junto aos excluídos sociais e aos pobres.
Se Jesus e Paulo usassem estes termos, hoje, seriam eles considerados de esquerda? Marxistas ateus?
São Jesus e Paulo discípulos de Karl Marx?
E o que dizer dos missionários no Haiti? O país onde os moradores comem um biscoitinho conhecido como "tê" que é feito de argila, manteiga e sal? Eles teriam o coração voltado à evangelização sem um desejo de transformação social? E sendo assim, seriam eles marxistas?
E as tantas agências missionárias nos países da Oceania, que sofreram com deslizamentos de terra e tufões. Reconstruir casas e escolas comunitárias é uma ação socialista?
E o que dizer dos doutores da alegria no Afeganistão? Discordando da guerra e levando alegria às crianças nos leitos de morte, bombardeadas, tudo gratuitamente, eles estariam organizando uma revolução comunista?
Se focar os olhos aos pobres, aos excluídos sociais, aos oprimidos pelo neoliberalismo capitalista é ser comunista, eu sou. Mas preferiria dizer que sou discípulo Daquele que não tinha onde reclinar a cabeça. Esta é a minha afirmação política: Não tenho partidos, sou discípulo de um prisioneiro político.
Uma visão limitada, sem conhecimento, sem pesquisa e preparo de material, sem entrevistas e muita reflexão, faz com que as pessoas discirnam equivocadamente as ações missionárias e mais, de um ponto façam fuá, num objetivo de auto-proclamação-intelectual.
Estes dias li uma crítica ao esquerdismo missionário. Lá, quase todas as críticas às organizações missionárias foram baseadas em pesquisa deste blog, pois aqui possuo links e vínculos com as organizações citadas.
O que faltou, na pesquisa do crítico, foi perceber que esta página é peixe pequeno. Ele talvez desconheça a atuação de outras organizações missionárias no que ele caracteriza como viés de esquerda. Talvez ele esteja desavisado sobre a Missão Integral, sobre os excelentes expoentes brasileiros Ariovaldo Ramos, Ed René Kivitz, Robinson Cavalcanti e Ricardo Gondim, que lançará seu mais novo livro em Novembro, pela Fonte Editorial chamado de Missão Integral: em busca de uma identidade evangélica; e outros. A Declaração da Rede Miquéias diz o seguinte sobre Missão Integral:
Talvez o autor das críticas desconheça O Movimento Contra a Miséria, Missão SAL, que atua no ABC paulista com os excluídos sociais, a participação da ABU, Aliança Bíblica Universitária no Conselho Nacional de Juventude (órgão consultivo junto do Governo Federal)...
Talvez, o autor não tenha percebido a presença do mesmo vídeo que ele considerou "um vídeo simpatizante do comunismo no post 11 de setembro" em outros blogs, como o Pavablog, por exemplo, que para mim é o melhor blog do Brasil, com postagens excelentes sem inclinações políticas.
Talvez o autor tenha lido pouco de Rubem Alves, Jung Mo Sung, René Padilha, Milton Schwantes, Jon Sobrino, Frei Betto, Leonardo Boff, (os dois últimos, "ícones do ideário marxista") e conheça pouco sobre as JEC's, CEB's, Pastorais, a escola de formação política do Avalanche Missões Urbanas, ou a escola de missões urbanas da JOCUM no Distrito Federal.
A coisa está aí faz tempo!
Tem gente trabalhando com os pobres faz tempo!
Tem gente chamando toda essa moçada de "gente da esquerda" faz tempo!
Desde o governo de Getúlio Vargas. Na Ditadura Militar, tentaram sufocar com a repressão, todas as organizações que "inclinassem" ao social. Palavras como "oprimido", ditas por Jesus no texto já citado ou "não me esquecer dos pobres", frase de Pedro à Paulo, os fariam ser considerados subversivos!
Muita gente está chamando os atuantes em projetos sociais, missionários ou não, de comunistas há muito tempo, por isso, ilustrar idéias com as "pérolas" do meu blog é pouco.
Análises equivocadas, ou melhor, visão superficial, traz consigo implicações para o todo da vida. E mais: os resultados disto para o cristianismo foram trágicos em todas as suas aplicações históricas.
Ninguém aprendeu essa lição?
Gito.
PS: Não mais comentarei sobre o assunto visto que esse texto mostra a minha posição.
Não conheço sequer uma agência missionária íntegra ou um missionário coerente com o seu objetivo que não vivencie, ou melhor, que não perceba as ações do Evangelho que vão além de aulas teológicas, mas transformações sociais, econômicas, e tantas mais.
Talvez, com a imposição positivista e com a influência capitalista na mídia, nos seminários e nas igrejas, principalmente as que possuem vínculos com fortes denominações americanas, “tradicionalizadas” na reforma protestante; toda a ação em prol do pobre, em mudanças sociais, ou até mesmo em ecologia, são atribuídas à uma atuação esquerdista.
Não consigo ler nos Evangelhos uma só ação missionária que fosse desprovida de transformações de caráter social.
Jesus, na sinagoga de Nazaré, no dia de Sábado, abriu o livro de Isaías e leu: O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para evangelizar os pobres; enviou-me para proclamar libertação aos cativos e restauração da vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos, e apregoar o ano aceitável do Senhor. E tendo fechado o livro, devolveu-o ao assistente e sentou-se; e todos tinham os olhos fitos nele. Então, Jesus passou a dizer-lhes: Hoje, se cumpriu a Escritura que acabais de ouvir. (Lucas 4:18 - 21)
Também o apóstolo Paulo, cita em Gálatas a orientação que recebeu de Pedro: ..."e, quando conheceram a graça que me foi dada, Tiago, Cefas (Pedro) e João, que eram reputados colunas, me estenderam, a mim e a Barnabé, a destra de comunhão, a fim de que nós fôssemos para os gentios, e eles, para a circuncisão; recomendando-nos somente que nos lembrássemos dos pobres, o que também me esforcei por fazer. (Gálatas 2: 9 e 10 - Itálicos meus)
Poderia citar tantos outros textos bíblicos sobre a atuação missionária junto aos excluídos sociais e aos pobres.
Se Jesus e Paulo usassem estes termos, hoje, seriam eles considerados de esquerda? Marxistas ateus?
São Jesus e Paulo discípulos de Karl Marx?
E o que dizer dos missionários no Haiti? O país onde os moradores comem um biscoitinho conhecido como "tê" que é feito de argila, manteiga e sal? Eles teriam o coração voltado à evangelização sem um desejo de transformação social? E sendo assim, seriam eles marxistas?
E as tantas agências missionárias nos países da Oceania, que sofreram com deslizamentos de terra e tufões. Reconstruir casas e escolas comunitárias é uma ação socialista?
E o que dizer dos doutores da alegria no Afeganistão? Discordando da guerra e levando alegria às crianças nos leitos de morte, bombardeadas, tudo gratuitamente, eles estariam organizando uma revolução comunista?
Se focar os olhos aos pobres, aos excluídos sociais, aos oprimidos pelo neoliberalismo capitalista é ser comunista, eu sou. Mas preferiria dizer que sou discípulo Daquele que não tinha onde reclinar a cabeça. Esta é a minha afirmação política: Não tenho partidos, sou discípulo de um prisioneiro político.
Uma visão limitada, sem conhecimento, sem pesquisa e preparo de material, sem entrevistas e muita reflexão, faz com que as pessoas discirnam equivocadamente as ações missionárias e mais, de um ponto façam fuá, num objetivo de auto-proclamação-intelectual.
Estes dias li uma crítica ao esquerdismo missionário. Lá, quase todas as críticas às organizações missionárias foram baseadas em pesquisa deste blog, pois aqui possuo links e vínculos com as organizações citadas.
O que faltou, na pesquisa do crítico, foi perceber que esta página é peixe pequeno. Ele talvez desconheça a atuação de outras organizações missionárias no que ele caracteriza como viés de esquerda. Talvez ele esteja desavisado sobre a Missão Integral, sobre os excelentes expoentes brasileiros Ariovaldo Ramos, Ed René Kivitz, Robinson Cavalcanti e Ricardo Gondim, que lançará seu mais novo livro em Novembro, pela Fonte Editorial chamado de Missão Integral: em busca de uma identidade evangélica; e outros. A Declaração da Rede Miquéias diz o seguinte sobre Missão Integral:
“Não é somente uma questão de que o evangelismo e o envolvimento social devam ser feitos concomitantemente. Ao invés disso, na missão integral a nossa proclamação tem conseqüências sociais ao motivarmos as pessoas a amarem e se arrependerem em todas as áreas da vida. O nosso envolvimento social tem conseqüências evangelísticas ao testemunharmos a graça transformadora de Jesus Cristo. Se ignorarmos o mundo, traímos a Palavra de Deus que nos envia para servir o mundo. Se ignorarmos a Palavra de Deus, não teremos nada para levar ao mundo. A justiça e a justificação pela fé, o louvor e as ações políticas, a transformação no âmbito espiritual, material e pessoal, e as mudanças estruturais devem caminhar juntas. Assim como vimos na vida de Jesus, o ser e o fazer estão no âmago da nossa tarefa integral.”
Talvez o autor das críticas desconheça O Movimento Contra a Miséria, Missão SAL, que atua no ABC paulista com os excluídos sociais, a participação da ABU, Aliança Bíblica Universitária no Conselho Nacional de Juventude (órgão consultivo junto do Governo Federal)...
Talvez, o autor não tenha percebido a presença do mesmo vídeo que ele considerou "um vídeo simpatizante do comunismo no post 11 de setembro" em outros blogs, como o Pavablog, por exemplo, que para mim é o melhor blog do Brasil, com postagens excelentes sem inclinações políticas.
Talvez o autor tenha lido pouco de Rubem Alves, Jung Mo Sung, René Padilha, Milton Schwantes, Jon Sobrino, Frei Betto, Leonardo Boff, (os dois últimos, "ícones do ideário marxista") e conheça pouco sobre as JEC's, CEB's, Pastorais, a escola de formação política do Avalanche Missões Urbanas, ou a escola de missões urbanas da JOCUM no Distrito Federal.
A coisa está aí faz tempo!
Tem gente trabalhando com os pobres faz tempo!
Tem gente chamando toda essa moçada de "gente da esquerda" faz tempo!
Desde o governo de Getúlio Vargas. Na Ditadura Militar, tentaram sufocar com a repressão, todas as organizações que "inclinassem" ao social. Palavras como "oprimido", ditas por Jesus no texto já citado ou "não me esquecer dos pobres", frase de Pedro à Paulo, os fariam ser considerados subversivos!
Muita gente está chamando os atuantes em projetos sociais, missionários ou não, de comunistas há muito tempo, por isso, ilustrar idéias com as "pérolas" do meu blog é pouco.
Análises equivocadas, ou melhor, visão superficial, traz consigo implicações para o todo da vida. E mais: os resultados disto para o cristianismo foram trágicos em todas as suas aplicações históricas.
Ninguém aprendeu essa lição?
Gito.
PS: Não mais comentarei sobre o assunto visto que esse texto mostra a minha posição.
Marcadores:
Gito,
Missão,
opinião,
T.Libertação
Varanda, conversas e saudade
A saúde já não estava lá aquelas coisas. Tanta debilidade do corpo fazia externar cada vez mais fragilidade. Os dias haviam ficado menos agitados, sem tantas atividades. Passava a maior parte do tempo descansando deitado, fosse na rede, no sofá ou na cama.
O Neto, que o admirava desde a sua criancisse, o olhava com o coração temeroso só de imaginar sua partida, mas bem sabia que não tardaria em chegar. O avó demonstrava tantos sinais de que já quase não vivia aqui nesse mundo, mesmo estando por esses lados ainda. Era como se já estivesse com Deus, só esperando o corpo apagar de vez.
Nesse dia, estranhamente, o avó, porém, aparentava uma vitalidade não vista nos últimos dias. Tanto que foi capaz de sentar-se na cadeira na varanda. E lá estavam, enternecidos pela companhia um do outro, tomando caldo de cana moído na hora no sítio, e com uma bandeija de bolo de fubá, daqueles que formam uma casquinha crocante e tem uma farofa doce por cima, especialidade de sua velha senhora, tão companheira em todos esses anos.
Após um longo período de contemplação da paisagem, sem nada dizerem um ao outro, mas aconchegados na ternura dos olhares de ambos, cheios de sinceridade, o neto, enfim, pergunta:
- Vô chico, você tem medo de morrer?
- Eu não tenho, não. – disse o velho com voz mansa e embargada pela sua fragilidade.
- Mas todo mundo tem medo de morrer. Tanto que ninguém quer isso. Por que o senhor não tem?
- Ah, rapaz, depois de uma vida inteira dessas, a gente vai entendendo que a morte é só mais um acontecimento natural da nossa vida. Não se pensa em morte como MORTE. Apenas como qualquer coisa qualquer. Como é nascer, fazer aniversário, visitar um amigo, comer um bolo.Assim também é morrer. Um dia, a gente morre mesmo. Mas isso não é nada. É apenas um processo que temos que passar. Mas, a gente continua vivo lá com Deus, onde a gente jamais deixa de viver. É quase como se a morte nem acontecesse. Mas a gente tem que passar por ela pra chegar lá de vez.
- Ah, então ela é como um ônibus!
- (Risos)É, como um ônibus. Sem pegar ela, a gente não sai daqui, mesmo já estando lá bem antes de morrer. Na minha idade e doente como estou, eu tenho medo é de durar muito mais tempo aqui e...opa...Lá vem a sua avó. Não posso deixar que ela me veja assim. Senão vai descobrir que estou velho. rs
- (risos)Tenho uma notícia, vô: ela também está. Rs
- E continua bonitona, não é? Rs
- (risos) É, é sim.
Riram, como sempre costumam fazer quando estam juntos. Silêncio outra vez. Um pássaro cantou, o Sol andou alguns graus no céu, rumo ao entardecer. Permaneciam ali.
- A Dona Cristina, aquela mulher meio maluca da igreja, disse que não era justo que o senhor estivesse passando por isso. Que o senhor não deveria estar doente, pois sempre foi uma pessoa muito boa. Sempre ajudou os outros, foi honesto, e que não merecia nada disso agora. Ela disse que estava orando pra Deus curar o Senhor e que, como Deus é justo, ia ter que atender. Eu não soube o que dizer pra ela. rs
- (risos) Essa dona é maluca mesmo, meu filho. Esses dias ela apareceu aqui e falou a mesma coisa pra mim e pra sua avó. Mas tudo isso é besteira dela. Como pode ser injusto que um velho como eu sofra das doenças da velhice? Eu fui bom? Merecedor de que? De viver até aos 100 anos? Se fosse por justiça ou dignidade de alguma coisa, eu estava perdido. Eu e todo mundo aliás. Não há um que seja bom na terra inteira. Essa mulher não sabe o que diz. Rs Está ficando gagá, como o seu velho aqui. rs
Imagine só, orar pra que um velho não tenha as doenças de velhos. Que injustiça há nisso? É como orar pra que o sol não esquente ou ilumine o dia, que a água não refresque, que o vento não ventile ou que o bolo de fubá da sua avó não seja bom. rs. A gente, como gente, está sujeito a toda sorte de coisas possíveis de sobrevir a nós. Assim como as crianças estão sujeitas a cair e se ralarem inteiras, os velhos estão sujeitos às doenças da velhice. Imagine só. Eu vou lhe avisar, meu neto, você ainda verá essa mulher orando pra Deus lhe restituir os dentes da boca, porque ela achará injusto que uma velha fique banguela, tendo sido tão boa na vida. rs
- (risos) É vô. Daquela ali eu não duvido de nada, não. Rs
- Ah, de todos os espinhos da idade que me espetam na carne, a graça de Deus é o que me basta, meu filho. A graça. Eu quero é sossegar.
Uma pausa pra comer um pedaço de bolo e tomar um copo de garapa gelada com limão. Um suspiro fundo e:
- Vô, mesmo sabendo de tudo isso agora, quando o senhor for, se eu chorar, não vou estar sendo “maricas” por isso, vou? rs
- (risos) Não. Rs. Mas não lamente a minha morte, filho. Saiba que não deverá tardar em vir essa hora. Já estou cansado, fraco, em paz e pronto pra ir. O meu Senhor me espera lá em cima. Não há porque interromper o processo.
- É que eu sentirei saudades de você, vô.
- Eu também, Bruninho, meu neto. E esperarei ansioso por você lá no céu. Mas não me vá querer ir depressa, se não sua mãe me mata, mesmo eu estando já morto. Rs
Bruninho sorriu da piada do avô e o abraçou. Ficaram assim um bom tempo, juntos.
Na madrugada, um anjo veio visitar o Seu Chico. É que ele tinha um encontro com o Homem com quem vinha conversando há alguns dias e o anjo iria consuzi-lo até lá. Quando encontrou o homem, a sensação foi a mais indescritível. Uma mistura de paz e euforia, saudade seguida de presença preenchida, sossego e descanso, e uma forte impressão de que já estivera ali, de alguma forma. Na manhã seguinte, os familiares e amigos chegados foram avisados do ocorrido. Bruninho, porém, não ficou surpreso. Sabia que o ônibus havia passado e seu avô embarcou. Sentiu apenas escorrer pelo rosto uma lágrima. Não se sentiu “maricas”, apenas cheio de saudade.
Isabela Pizani é estudante do curso de Publicidade no Instituto Superior de Ciências Aplicadas e em Limeira. (isabelapizani@gmail.com)
quinta-feira, 29 de outubro de 2009
Cavalos, salsichas, anjos e demônios.
Nos filmes para TV, nos interiores das casas e nas angústias das almas, nos Estados Unidos, conta-se uma história que diz que os cavalos, quando caem, eles quebram as pernas, e aí, já não prestam pra mais nada. É preciso mata-los.
Depois de mortos, os cavalos viram sansichas. As donas de casa compram as sansichas e fazem lanches para os seus filhos. As crianças pegam o lanche com as sansichas, comem e viram cavalos.
Semelhantemente, em uma outra história, a cena se repete, mas com aspecto de poder destrutivo.
Um anjo, quando quis ser o próprio Deus, caiu e quebrou as asas. Quando os anjos quebram as assas, viram demônios de asas quebradas. Já não servem mais para o céu. Aí, eles passam a vender pecados gratuítos afim de se sustentarem ainda com força. O homem, que gosta mais de anjos do que de Deus, compra os pecados, cria asas quebradas, tenta ser Deus e vira demônio.
Qualquer semelhança com a vida real, não é mera coencidência.
Um Beijão, Isa.
Isabela Pizani é estudante do curso de Publicidade no Instituto Superior de Ciências Aplicadas e em Limeira. (isabelapizani@gmail.com)
Marcadores:
idéias,
Isa,
Pensamentos
quarta-feira, 21 de outubro de 2009
Meu pequeno Polegar
Ontem assistindo a estes programas de fofoca de fim de tarde, vi noticiado a tentativa de suicídio do ex-cantor Rafael, do Polegar. Claro que a notícia foi hipersensacionalizada, mas me fez pensar como anda a nossa sociedade.
Todos têm conhecimento que o cara já foi um cantor famoso, caiu no ostracismo e por fatores que desconheço é um viciado em crack, morou nas ruas, se tornou bandido, etc. Depois a TV o reencontrou , Gugu fez o “show de caridade” dele e o cara voltou a aparecer na mídia, como alguém recuperado, equilibrado, transformado, liberto e o pior, crente!
Antes fosse Cristão, na humildade de ser limitado e dependente de seu Mestre. Falho, passível de erros, atracado à Graça.
Mas não foi assim. Pintaram um cara com terno e gravata, bem penteado e com um vocabulário evangeliquês. Logo de cara, o cidadão se torna responsável por uma clínica de reabilitação, figura agora constante em vários programas de gosto duvidoso. Eu ficava me questionando por quê... Porque esta supervalorização da aparência. Porque esta necessidade de parecer?
Se livrar de um vício mortal, ter filho, esposa, família já não é benção suficiente? Já não basta para ser feliz? Não. Porque nossa sociedade baba pela exposição e pela fama. Ninguém gosta de mostrar os seus fracassos, admitir os erros e seguir em paz, aliviado pelo perdão e a possibilidade de um recomeço.
Na verdade estamos sempre criando heróis... midiáticos, paraguaios e descartáveis.
Pobre polegar!
Esperaram demais de um cara mentalmente fragilizado pela droga, humanamente limitado pelas agruras da vida. Da vida comum mesmo, pessoal. Triplicado pela pressão de “ter que vencer”. Ele surtou, não me choquei, acho até que ele foi forte, afinal parte da culpa está na depressão das aparências. A paranóia que se percebe não apenas neste caso mas em dezenas de “tristemunhos” permeados de discursos hipócritas, onde não cabe jamais a possibilidade da dor reincidente.
As pessoas querem “brilhar”! Chamar a atenção, hoje como não se consegue nem ter nem ser, o lance é ao menos parecer! Parecer que sabe, parecer que faz, parecer que crê.
Deixamo-nos levar por esta necessidade de parecer perfeitos, bem sucedidos, autores de uma linda história de vida triunfante.
Sem deslizes e maus bocados.
O que eu aprendo com a jugular mal cortada de Rafael Ilha?
Que devemos nos livrar da tirania da aparência, do vício do aplauso e assumir a responsabilidade pela própria alegria ou para aquilo que chamamos de felicidade.
E acima de tudo aprendi que caco de vidro na “guela” não leva ninguém pra terra do pé junto, mas dá ibope no Super Pop.
Paz perfeita!
Avelin Rosana é estudante de Ciências sociais na Metodista em BH, musicista, agora dedica seu tempo ao dom de ser mamãe. Reside em Belo Horizonte. (avelintribos@hotmail.com)
Marcadores:
atualidade,
opinião,
Ávelin
terça-feira, 20 de outubro de 2009
Conto duma noite de Domingo
Cheguei atrasado e fui entrando pelo corredor, fugindo das gotas da chuva, andando tão rente à parede que sujei minha camiseta com o cal, e entrei, apressado. A reunião havia começado.
Como todos já estavam em pé, procurei um lugar alí no fundo.
Ninguém me viu. Os que estavam ao meu lado, estavam concentrado no casal, que lá da frente, dirigia as músicas. Num momento, diante da ordem do casal, alguns ao meu redor até me saudaram e disseram, repetindo o que o homem dizia: Hoje - vai - acontecer - um - milagre - em - sua - vida.
Eu sorri num gesto de agradecimento e não tive coragem de dizer Amém. Não que me falte fé, mas, não que me sobre também. Não era o momento de dizer "Assim seja"
Depois disso, todos se concentraram no casal, que falava algumas frases que eu já havia lido nos rodapés de agenda ou escutado dezenas de vezes em outras reuniões. Todos agiam exatamente como lá da frente pediam e, ocupados demais, não reparavam que eu me sentia muito pouco à vontade. O público marchava para a direita, depois para a esquerda, depois para frente e para trás e numa explosão cantavam com toda a força dos pulmões: Por todo lado, sou abençoado! Prosperarei ...
Essa música acabou, eu agradecí aos Céus e meu coração pedia alguma música que pedisse menos e agradecesse a bondade da vida, ou sobre Aquele dia bom, "Amazing Grace", "De todas as tribos", alguma assim; foi quando outra canção começou, e as pessoas levantaram as mãos e cantaram: "Como Zaqueu, quero subir..."
Depois de um período longo de músicas, palavras de ordem e da dinâmica 'vire para o seu irmão e diga alguma coisa', todos se sentaram.
5 segundos.
Nos mandaram ficar em pé, e entoar uma outra canção para o momento de dízimos.
Nenhum anjo poderia saber que aquela canção seria tão longa! Na verdade, era pequena, mas foi repetida centenas de vezes.
Todos se sentaram.
Um homem com terno impecável, leu o texto bíblico onde Jesus falava aos discípulos sobre a viúva pobre. Ninguém acompanhou a leitura, pois se estivessem feito, não aceitariam a distorção da idéia. Mas, preferí acreditar que isso poderia ter sido apenas uma distração de todos. O homem de terno frisava o ato de ofertar. Ao terminar suas palavras, pediu para que todos ficassem em pé e juntos cantaríamos uma canção, enquanto os membros poderiam contribuir com as ofertas para a construção de um novo templo.
Na saída da reunião, todos se organizavam em grupos e conversavam. Os jovens se organizavam para comer cachorro-quente. Ninguém me viu. Ah não, do lado de fora um velho me pediu alguns trocados por cuidar do meu carro. Eu disse que o carro não era meu, mas que lhe pagaria um salgado se ele me acompanhasse até a padaria. Ele foi, gentil, lá tomamos um refrigerante e comemos alguns salgados. Ele sorriu agradecido.
Perguntei seu nome, só por força da ocasião. Ele respondeu: Claudemar.
E, tímido, sorriu envergonhado ao me perguntar: E o teu?
Eu respondi: Deus.
Ele teve dificuldade de acreditar, mas quando eu desaparecí e ele se viu só, pensou consigo: "Não me ardia o coração, quando Ele falava?"
Eu ouvi seu pensamento e sempre ouço suas orações.
Ele continua cuidando dos carros dos membros da igreja.
Jamais entrou na reunião.
Se ele entrasse, não seria notado.
Marcadores:
Contos,
Espiritualidade,
Gito,
T.Libertação
sexta-feira, 16 de outubro de 2009
Terra, Marte, lua, ricos e pobres
Conta-se a história, por todo interior paulista, sobre o sábio Seu Adão, que por causa desse nome já sofreu inúmeras injúrias dos religiosos que remetiam o nome à pessoa que distraidamente, como acham, deixou a mulher dominar-se pela serpente e ele, perdidamente apaixonado veio a sucumbir ao pecado de morder o fruto proibido.
Seu Adão, paulistano, era bem diferente do Adão dos primórdios. Quando sua primeira esposa faleceu, ele juntou os cacos de seu coração, abençoou os filhos e foi namorar. Descobriu Dona Julieta num desses forrós de bairro, e não precisou muito para conquistá-la. Entre um passo e outro e uma apertadinha ao dançar, Dona Julieta se derreteu ao encanto daquele homem e muito mais à sua cordialidade. Tratava a todos com respeito. Ainda era um daqueles raros homens que abria a porta de sua Variant verde-limão, puxava a cadeira num restaurante e dava vez à mulher ao entrar por uma porta.
Mas quando Dona Julieta, que tinha nome de Dona e sobrenome Julieta, descansou, Seu Adão, viúvo pela segunda vez, consolou os parentes e foi viver só, no campo. Dizia ele que os velhos e a natureza combinam. Um entende a dor e a solidão do outro.
Dizem que foi o Seu Adão que espalhou essa história.
A história de quando os ricos mudaram de planeta.
Foi num ano desses de dois mil e alguma coisa. O Brasil aguardava ansiosamente por jogos de futebol e olímpicos em sua terra, um presidente negro norte-americano ganhou um prêmio, tal de "Não Bel, dá Paz", mas o que mais lembrava aqueles anos, era o anúncio do jornal: NASA descobre água em Marte e diamantes e petróleo na lua.
Imediatamente a notícia se espalhou. Entre os pobres era só boato. Alguns, como o Firmino, Tonhão, Nenê e Odair nem acreditavam na existência de outros planetas. Eles queriam mesmo era saber o resultado do campeonato brasileiro e tocar a vida mansa de interior, ou melhor, periferia interiorana, já que eles moravam nos bairros distantes das cidadezinhas.
O mundo pegou fogo quando os jornais estamparam as fotos de uma jazida de ouro na lua. As agências de viagens fecharam pacotes, as empresas de aviões inventaram foguetes, os agentes imobiliários vendiam terrenos, dizem as más línguas que até uma igreja que possui um canal de TV, montou um projeto missionário e lá plantou 318 templos.
O mundo rico, depois de 5 anos, havia se mudado. Era chique viver em Marte, perto das celebridades. Muitos que haviam ido à lua, haviam enriquecido com tanto ouro! Quantas meninas se realizaram vivendo no mesmo quarteirão dos astros de Hollywood! Inventaram Shopping's, uma só moeda com o rosto de um extra-terrestre e uma frase: "In ET'$ we trust". Carros, casas, saunas, ternos de grife. Espelhos por todas as partes para satisfazer os narcisistas. Toda a chiqueza da qual os ricos e poderosos precisam.
Marte e a lua se tornaram o centro do planeta.
A Terra fora abandonada, bom, não assim, exatamente.
Só ficaram aqui aqueles que não tinham condições de pagar uma viagem para o espaço. Os ricos nem ligaram, alguns até disseram: Que eles não venham roubar nossas casas, sujar nossas ruas, invadir nossas fazendas lunares!
Seu Adão disse que os pobres se organizaram. Decidiram que não haveria guerra, dividiram seus campos, uns ajudaram os outros a construir suas casas, plantaram e cuidaram da terra, da natureza. Sem a exploração da Amazônia, algumas espécies em extinção voltaram a crescer, voltaram ao habitat natural. O homem cuidava do mundo ao seu redor. Plantaram árvores, limparam rios, derrubaram barracos e construiram um puxadinho, houve equilíbrio ecológico e até os tufões deixaram de assombrar a Oceania. Os velhos ensinavam as crianças e as crianças não trabalhavam em minas de carvão como antes, depois das aulas elas brincavam de pique-esconde até o entardecer. Com a ajuda de médicos vindos do oriente, alguns com barba de cubano, e muitos indígenas brasileiros, descobriram a cura para o câncer e muitas outras doenças. Não vendiam a cura, mas buscavam sempre a opinião de uma criança sobre como proceder com amor.
O mundo nunca foi tão simples e a vida nunca foi tão bem vivida.
Mas o seu Adão conta, que lá de Marte, as pessoas sintonizadas em Aipode's e internet de última geração, por um tal de satélite do Gugol, coisa que ele não sabia pronunciar direito, viram os avanços da Terra. E quando souberam das curas das doenças, organizaram um exército, com a ajuda de alguns seres criados por um tal de Jorge de Lucas - dizem que ele foi um cientista que criava bichos esquisitos e fazia com que eles aperecessem na TV para assustar criancinhas ricas - e lograram um tema: Guerra nas estrelas! Voaram em foguetes na direção da Terra e lançaram projéteis sobre as vilas, matando inocentes, os seres esquisitos engoliam as pessoas sem mastigar, e com a força das armas, roubaram a cura das doenças. Quando souberam que a cura estava nas plantas da Amazônia, criaram um esquema de invadir a Floresta, esse plano se chamou Dom Pedro 1, ninguém sabe o porquê. Mas se sabe que muitos indígenas foram mortos e tiveram suas aldeias destruidas. Na volta para Marte, resolveram passar no leste africano e levar algumas pessoas como escravos. Também levaram orientais para trabalhar em suas fábricas de tênis, já que os robôs haviam criado vida própria e se rebelavam. E para não levar suas bombas de volta à Marte, jogaram-nas sobre o Afeganistão, o Iraque e a Palestina, ato que ficou conhecido como "Guerra ao terror", ninguém sabe o porquê.
Os que não morreram ou foram levados, ficaram escondidos no que sobrou da terra:
Uma antiga fazenda de recuperação, no estado do Goiás, no Brasil, fazenda da época de dois mil e alguma coisa. Os ricos nem passariam perto de lá. Naquela época, aquele era um lugar de drogados, soropositivos, prostitutas, travestis, crianças de rua, moradores sem terra, cabeças-chatas, negróides, pecadores, leprosos, aleijados, desequilibrados mentais ... gente que contamina o planeta na opinião dos agora moradores de Marte.
Começaram a se organizar de novo, plantar árvores, cuidar dos animais, dividir o pão, curar doenças pela força do amor. Um tal de Grandhe, homem careca e baixinho, vivia estimulando a rapaziada a permanecer em paz! Lembrem-se de Deus que virou gente e disse: bem aventurados são os que procuram a paz - ele dizia. E isso contaminou cada coração.
A arma era o amor, mesmo porque eles não poderiam enfrentar um exército de foguetes com paus, pedras e bambús.
Alguns mais desajuizados até pensavam: Vou ficar em paz sim, mas torcendo prum cometa passar por Marte, resvalar na lua e nos fazer justiça.
Outros, como o Seu Adão, pensavam que o melhor lugar para se viver, não é um lugar, lugar mesmo, onde pisam os pés. Mas onde existe amor. Ele morreu citando as palavras dum poeta, com nome esquisito, Robert Southwell, dizem que ele era gringo, mas ninguém sabe de qual gringo era ele. "Eu vivo, não onde respiro, mas onde amo".
O cometa passou ...
Mas como pobre é azarado, bateu em Marte, resvalou na lua e acertou em cheio a Terra.
Ninguém ficou para contar a história.
Gito.
Marcadores:
Contos,
Curiosidades,
Gito,
T. Libertação
Assinar:
Postagens (Atom)



![[Seja um mantenedor]](http://www.caiofabio.com/newsletter/banner_cadvvtv.jpg)








